"Saúdo na Magnífica Reitora os componentes da Mesa Peço dez segundos de silêncio, em respeito aqueles que nos antecederam no término da viagem. (As crianças estão dispensadas.) Meus senhores, minhas senhoras e minhas crianças (deve haver algum neto dos meus aí na platéia). O nosso Mario Quintana escreveu: " ... e uma formiguinha atravessou em diagonal a página ainda em branco; e nesse dia o poeta nada escreveu. Para quê? Pois sobre esta página passou o frêmito e o mistério da vida." Nessas vinte palavras, tirando os artigos, as conjunções e as preposições, o poeta disse tudo. Mas, sempre tem um mas, como todos vocês passaram por um curso, vão ter que passar por um discurso. E aí vai: não vou dar conselhos, nesse sentido sigo o Pitigrilli, escritor italiano, em grande voga na década de vinte. Ele se caracterizava pelo título erótico de seus livros. Exemplifico: A Virgem dos Dezoitos Quilates, Mamíferos de Luxo, O Cinto da Castidade, Os Vegetarianos do Amor, e assim por diante. Ele declara no pórtico de um dos seus Livros: "Não me dêem conselhos. Deixai-me errar por mim mesmo. " Assim faço eu. Não dou conselhos. Vou trazer algumas informações que me parecem dignas de serem apresentadas para meus colegas de viagem. estava este modesto esculápio, isso lá pela década de cinqüenta, na porta do Café Nacional, situado na época da esquina da rua da Praia com a Vigário José Inácio, na companhia do dr. Alberto Panichi. Nesse momento, passam do outro lado da rua três ou quatro freiras com as vestimentas características, o Panichi se volta para mim e pergunta: "Por que será que aquelas senhoras não trocam aqueles maus hábitos por bons costumes?"
Esse mesmo Panichi era comunista praticante e sempre que falava em Deus dizia o senhor Deus. Falei para ele: "Mas Dr. Panichi, o senhor não acredita em Deus." Resposta do Panichi:" nunca é demais um pouco de respeito." O Panichi é que me citou as palavras de Francesca di Rimini, no Círculo dos Luxuriosos, em resposta à pergunta de Dante, sobre seu afeto por Paulo Malatesta: "Nessum maggior dolore che ricordarsi del tempo felice nella miseria." Foi nesse momento que comecei a me interessar pela Divina Comèdia. Interessa-me até hoje. O Panichi era amigo do genial Aporelly, nome completo, segundo o professor Alberto Gossen, que muitos de vocês conheceram, era Aparício Brinkerofi Torelly. De onde saiu esse Brinkerofi eu não sei. Prometo no próximo Jubileu, em 2049, trazer uma informação mais detalhada. O Aporelly perguntado certa vez sobre o conceito de nada, não vacilou um instante e lascou: "Nada é uma faca sem lâmina que perdeu o cabo." Interrogado acerca de suas virtudes no bel canto, o Aporelly informou: "Não sei se sou um baixo abaritonado ou um barítono abaixado." Sobre bens materiais ele informou que o único bem de raiz que iria deixar aos seus herdeiros era um olhar enérgico.
Formando na Faculdade de Medicina1949
Cheguei a ver o Aporelly, quando o Yedo Fiuza foi candidato a presidência da república pelo Partido Comunista do Brasil, quando foi eleito o Gal. Eurico Gaspar Dutra. O Aporelly veio fazer uma palestra para arrecadar fundos para o partido. A palestra se realizou no Cinema Carlos Gomes, aquele cujos cartazes não podem ser mostrados na rua. Giovani Papini, prêmio Nobel da Literatura na década de 50, no genial e palindrômico GOG, traz a informação dos doze autores que devem ser lidos: um grego, Homero na Ilíada; três alemães: Leibni, na Monadologia; Goethe, no Dr. Fausto; Nietzscke, na Zaratustra. O Papini , na História de Cristo, chama o Nietzscke de anticristo sifilítico. Dois russos: Tolstói, na Ana Karenina e Dostoievski no Crime e Castigo. Dois italianos, Ariosto no Orlando Furioso e Dante na Divina Comédia; dois ingleses, Shakespeare no Hamlet e Swift, nas Viagens de Guliver; um francês, rebelais, no Pantagruel e Gargantua, e o meu cervantes, espanhos no milagroso Don Quixote. O Papini, mais tarde no Livro Negro se redime de alguma omissão e traz o Voltaire, que também deve ser lido. Voltaire, no Candide, nos diz que o trabalho nos livra de três grandes males: do tédio, do vício e da necessidade. No Zadig, ele nos faz refletir sobre os problemas maiores da existência. Em outro livro, cujo nome não me lembro com precisão mas me parece ser os Ouvidos do Conde de Chesterfield, ele fala na influência da constipação intestinal no bom ou mau humor de seus personagens. Como os problemas intestinais são um tanto perigosos, deixo para o próximo Jubileu para dar essas informações. O Voltaire ironiza Leibiniz no Candide, chamando-o de dr. Pangloss. Mas isso fica para o próximo Jubileu.
Aspirantes do NPOR - Cruz Alta - 1944Da esquerda para direita: Isaac Kelbert, Francisco Godoy Gomes, Egon Weber Müller e Carlos Kwitko.
Nos provérbios de Salomão, terceira exortação do sábio, é dito que quem tem a sabedoria, na mão direita sustenta uma longa vida; na esquerda riqueza e glória. Todos vocês estão incluídos nessa categoria. La Rochefoucauld, no século XVII nas Máximas, apresenta a seguinte reflexão: "Todos se queixam de sua ruim memória; ninguém se queixa de sua escassa inteligência." Parece-me um assunto máximo para reflexão. O Borges Trismegisto não ganhou o Nobel. O Saramago nesta sala declarou que o Nobel não era tão importante, pois o Borges e o Fernando Pessoa não foram agraciados com o dito Nobel. Lanço desta tribuna o mais veemente protesto contra essa omissão dos suecos.
Isso significa que é o mesmo que um cão uivando para a lua. A lua deve estar pensando: "Quem é esse inseto que está uivando para mim. Deve ser um lunático." O Borges no Evangelho Apócrifo diz: "Feliz o pobre sem amargura e o rico sem soberba." O Borges era nosso amigo. Sempre que visitava o Brasil, levava consigo uma edição dos Sertões, do nosso megalítico Euclides da Cunha. Na sua obra o Borges sempre inclui um personagem brasileiro, a mais das vezes do Rio Grande do Sul. A mãe do Borges, Leonor Acevedo de Borges, era fanática por Eça de Queiróz e Dickens. Na Constituição de 88, os velhos com mais de 65 anos têm direito de viajar de graça nos ônibus. Alguns motoristas não gostam dos velhos. Ocorreu um dia destes que minha mulher estava num ônibus Jardim Ipê e ao qual entrou uma chusma de velhos pela porta da frenre. O motorista resmungou de modo audível: " Quantas múmias?" Uma velhota, que estava perto e ouviu a manifestação do motorista, respondeu na hora: "Só falta a tua mãe!" Eu gostaria de conhecer esta velhota.
Vou falar alguns minutos (poucos) sobre uma pessoa que eu vejo diariamente no espelho. Passei praticamente toda a vida profissional num Necrotério. Meu Necrotério ficava na Avenida Osvaldo Aranha, número 20, aos fundos da Santa Casa de Misericórdia. Ficava o dito bem juntinho do mictório da Prefeitura. Até hoje nós discutimos qual dos dois órgãos era olfativamente mais agressivo! A discussão vai longe. Prometo que, ao próximo Jubileu, vou resolver esta questão de importancia transcendental. Alguns fatos ocorridos durante minha atividade como legista penso devem ser refletidos. Havia entre os legistas da época, um distinto colega de origem espanhola: dr. Sylvio Raya Ibañez, muito meu amigo. O nome usado por ele ao serviço era dr. Raya (pronunciado como ditongo). Eu por brincadeira o chamava de Raía (como hiato). O colega tolerava a brincadeira, mas não gostava muito dela. Ocorre que um determinado dia um padre morreu atropelado. O nosso querido Dom Vicente Scherer telefonou para o Raya, com aquele tom de voz e sotaque que todos nós conheciamos através da Voz do Pastor, numa das rádios locais. Ao falar com o Raya chamou-o de dr. Raía. O Raya, pensando que era eu aplicando um trote, explodiu com aquele sangue espanhol: "F. da p., vai para a p. que te p." Dom Vicente não caiu porque estava sentado. Perplexo, Dom Vicente falou;" Mas doutor, o que é isto?" O Raya, percebendo a mancada, caiu em si (quase quebrou uma perna). Resolveu o caso para Dom Vicente. Dom Vicente um dia teria comentado com um amigo: "Um dia um legista me chamou de f. da p." Mas houve momentos amargos. Um dia em que havia poucos legistas em serviço, me pediram que eu fizesse a autópsia do corpo de um amigo, médico de altíssima qualidade, que havia praticado o autocídio, com uma dose considerável de Tatuzinho, um inseticida muito usado para fins de suicídio. Fiz a autópsia com as lágrimas jorrando sobre o corpo do inditoso amigo. Comecei esta fala com um poeta. Vou terminar com outro poeta. Francisco Otaviano, que foi da Academia Brasileira de Letras: "Quem passou pela vida em branca nuvem, e em plácido repouso adormeceu; quem passou pela vida e não sentiu o frio da desgraça; quem passou pela vida e não sofreu, foi espectro de homem, não foi homem, só passou pela vida, não viveu."
sábado, 1 de março de 2008
sábado, 19 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
Bodas de Ouro
"Como filha de dois dos melhores contadores de histórias, não vou fazer um discurso. Vou aproveitar que estamos juntos hoje e contar uma história aos mais novos. A nossa história.
O Pai sempre diz: era Carnaval... Baile no Clube Paladino, em Gravataí. No salão, a Mãe... de vermelho, linda, a mulher mais bonita que ele já tinha visto. Conversaram... Na manhã seguinte, ao acordar, ele ficou em dúvida: ou era a pessoa mais inteligente que ele já tinha encontrado ou estava muito bêbado...as duas coisas eram verdade.
Brincadeiras à parte, foi assim que o filho do Vô Miguel e da Vó Sophia conheceu a filha da Vó Valdomira e do Vô Maneca.
Em 31 de dezembro de 1955 casaram-se. Logo viemos nós, os filhos: eu (Lisarb), a Têre, o Beto, o Miguel e a Lea. Família grande... mas sempre aumentada pela acolhida gentil e hospitaleira dos dois. A nossa casa estava sempre cheia: crianças, amigos, parentes... se alguém precisasse de pouso já sabia para onde se dirigir. No final de cada ano a festa lá em casa, no dia 31, já era tradicional... e a Mãe e o Pai faziam um festão! Na praia, era a mesma coisa: portas sempre abertas, camas improvisadas para acolher a todos, refeições em duas ou mais rodadas...
Hoje nos perguntamos como eles conseguiam dar conta de tudo...
O exemplo do Pai e da Mãe de superação das dificuldades que a vida impõe a cada um e vencer o desafio de criar os filhos, nos ensinou muito. Às pessoas que somos hoje. Tenho certeza que o que temos de melhor em nós vem de vocês.
Admiramos nossos Pais por isto, mas acima de tudo pelo exercício da tolerância, da paciência, pela determinação, pela fibra e pela coragem com que os dois construíram esta história: a nossa história.
Agora, 50 anos depois estamos reunidos para comemorar esta união e (tenho certeza que falo por todos nós, eu e a Têre, e pelos netos William, Frederico, Sophia e Henrique) para agradecer a vocês e dizer que temos muito orgulho de vocês dois.
Mãe Zoé, obrigada!
Pai Isaac, obrigada!
Parabéns a vocês dois!"
Quando o Pai e a Mãe fizeram Bodas de Ouro, em 31 de dezembro de 2005, foi um prazer e uma honra falar em meu nome e em nome dos meus irmãos. Tenho certeza, ainda hoje, que pensamos como naquele dia...
Lisarb
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